A União Soviética passou 22 anos furando a crosta da Terra e chegou a 12.262 metros de profundidade
Incrível encontraram água onde era impossível, hidrogênio borbulhando da rocha, granito de 2,7 bilhões de anos e temperaturas de 180 graus que derretiam as brocas.

A União Soviética passou 22 anos furando a crosta terrestre e chegou a 12.262 metros de profundidade — encontraram água onde não deveria existir, rochas de 2,7 bilhões de anos e temperaturas que derretiam as brocas
Em 1970, em uma região remota da Península de Kola, perto da fronteira com a Noruega, a União Soviética começou a perfurar o que se tornaria o furo mais profundo já feito pela humanidade.
O objetivo era simples na teoria e absurdo na prática: furar a crosta terrestre o máximo possível para descobrir o que existe lá embaixo.
Segundo dados compilados pela literatura científica do projeto, a perfuração atingiu 12.262 metros em 1989 — mais fundo que a Fossa das Marianas no oceano. E o que os cientistas encontraram desafiou quase tudo que os livros de geologia ensinavam.
Hoje, o furo está selado com uma tampa de aço de 12 toneladas e abandonado na tundra russa. Mas as descobertas continuam sendo estudadas.
12 quilômetros para baixo: mais fundo que qualquer oceano
O ponto mais fundo do oceano, a Fossa das Marianas, tem cerca de 11 mil metros. O furo de Kola atingiu 12.262 metros — mais de 12 quilômetros de rocha sólida perfurada verticalmente.
Para ter uma ideia, se você pudesse enfiar o Monte Everest no buraco, ainda sobrariam mais de 3 quilômetros de espaço.
E mesmo assim, os soviéticos só conseguiram penetrar um terço da crosta terrestre no local. O Escudo Báltico, camada geológica sob a Península de Kola, tem espessura estimada de 35 quilômetros.
O furo tem apenas 23 centímetros de diâmetro na superfície e se estreita progressivamente até menos de 10 centímetros no fundo. É um canudo de 12 quilômetros enfiado na Terra.

A 180°C, as brocas derretiam — e o granito virava pasta
Os cientistas esperavam encontrar temperaturas de cerca de 100°C a 12 quilômetros. Encontraram 180°C — quase o dobro.
Nessa temperatura, o granito de 2,7 bilhões de anos que compõe o fundo do furo se comportava como material plástico. Em vez de se quebrar sob a broca, a rocha se deformava, colapsava e envolvia o equipamento.
Brocas eram perdidas regularmente. A coluna de perfuração pesava 200 toneladas e precisava ser lubrificada por lama pressurizada para não emperrar.
Quando uma broca se soltava a 10 quilômetros de profundidade, não havia como resgatá-la. Os engenheiros precisavam recomeçar de pontos intermediários, desviando a perfuração como uma árvore que cria galhos.
O calor extremo foi o principal motivo para a paralisação em 1992. A meta original era 15 mil metros, mas a física venceu a ambição.
Água onde não deveria existir — e gás hidrogênio borbulhando da rocha
Uma das descobertas mais surpreendentes foi a presença de água em profundidades extremas. Os modelos geológicos da época diziam que não haveria água abaixo de certa profundidade — a pressão seria grande demais.
Estavam errados. A água estava lá, provavelmente aprisionada em microfraturas da rocha há bilhões de anos.
Mais inesperado ainda foi o gás hidrogênio. Os perfuradores encontraram hidrogênio borbulhando da rocha como uma panela fervendo. Ninguém esperava reservatórios de hidrogênio natural a essa profundidade.
Essa descoberta ganhou relevância renovada em 2026, quando empresas de energia começaram a investigar hidrogênio geológico como fonte de energia limpa. O furo de Kola, feito em 1970, pode ter encontrado um dos primeiros indícios do que hoje é considerado a “próxima revolução energética”.

Rochas de 2,7 bilhões de anos — e uma conexão inesperada com a Lua
A 2.993 metros de profundidade, os cientistas encontraram rochas com composição química surpreendentemente semelhante às amostras trazidas do solo lunar pelas missões Apollo.
A semelhança apoiou teorias de que a Lua se formou a partir de material terrestre — arrancado por um impacto colossal há 4,5 bilhões de anos.
No fundo do furo, o granito tinha 2,7 bilhões de anos de idade. São rochas que se formaram quando a Terra não tinha oxigênio na atmosfera, quando os únicos seres vivos eram micróbios aquáticos.
A corrida pela profundidade: Guerra Fria embaixo da terra
O furo de Kola não era apenas ciência. Era propaganda. A União Soviética queria provar que podia ir mais fundo que qualquer outro país — literalmente.
Os americanos tinham o Projeto Mohole nos anos 1960, que tentava perfurar a crosta oceânica. Foi cancelado por falta de verba. Os alemães fizeram o KTB, que alcançou 9.101 metros. Respeitável, mas 3 quilômetros aquém dos soviéticos.
Até hoje, nenhum país superou os 12.262 metros verticais de Kola. Poços de petróleo como o Sakhalin-I na Rússia atingiram 12.345 metros de comprimento total, mas perfurados em diagonal — a profundidade vertical é muito menor.
O recorde de profundidade vertical de Kola permanece inquebrável desde 1989.
Uma tampa de 12 toneladas e o abandono na tundra
Com o colapso da União Soviética em 1991, o financiamento secou. A perfuração parou em 1992. Em 1994, o projeto foi oficialmente encerrado.
Em 2005, o furo foi selado com uma tampa de aço soldada de 12 toneladas. As instalações ao redor foram abandonadas. Hoje, a estrutura apodrece na tundra da Península de Kola, coberta de neve e ferrugem.
Nenhum país voltou a tentar uma perfuração puramente científica nessa escala. O Japão planeja usar o navio Chikyu para perfurar a crosta oceânica até o manto, mas a meta é de apenas 3 mil metros — quatro vezes menos que Kola.

O que o furo de Kola ensina sobre o futuro da energia
A descoberta de água e hidrogênio a profundidades extremas era uma curiosidade em 1989. Em 2026, é potencialmente revolucionária.
Empresas como a Fervo Energy estão perfurando a 4,8 quilômetros para extrair calor geotérmico. Se Kola mostrou que existe calor e fluidos a 12 quilômetros, o potencial geotérmico da Terra é muito maior do que se explora hoje.
O hidrogênio natural encontrado em Kola é o mesmo que startups de energia buscam em 2026 na Austrália, nos EUA e na África. Se a Terra produz hidrogênio naturalmente, talvez não seja necessário fabricá-lo com eletricidade.
O furo mais profundo da humanidade foi selado há 20 anos. Mas as perguntas que ele levantou — sobre o que existe embaixo dos nossos pés, sobre energia ilimitada sob a crosta, sobre vida onde não deveria haver vida — continuam sem resposta.
Será que algum país terá coragem de furar mais fundo?
