
“É só fechar a boca”, “já tentou a dieta tal?”, “basta ter força de vontade para perder peso”, “quem quer, consegue”. Se você é uma pessoa adulta e vive com obesidade, deve ter ouvido pelo menos uma dessas frases em algum momento da vida. Talvez até mesmo de um profissional de saúde.
A ciência, no entanto, vai em outra direção. Já está comprovado que perder peso é um processo complexo que envolve uma série de fatores e varia de pessoa para pessoa. A obesidade é uma doença crônica, progressiva e recidivante, isto é, tende a voltar mesmo após o tratamento.
“Algumas pessoas têm mais dificuldade para perder peso porque o corpo humano não funciona da mesma forma para todos. Fatores genéticos, hormonais e metabólicos influenciam em como o organismo gasta energia, armazena gordura e responde às dietas”, afirma Francieli Barreiro Ribeiro, nutricionista e coordenadora executiva do Curso Avançado de Medicina da Obesidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Desse modo, a dificuldade para perder peso não é uma questão de força de vontade, mas o resultado da interação entre biologia, ambiente e condições de vida.

Principais fatores envolvidos na obesidade
A obesidade é uma doença bastante complexa. Segundo Ricardo Lopes Barroso, endocrinologista da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP), existem fatores hormonais que interferem tanto no desenvolvimento quanto na perpetuação da obesidade.
“Quando a gente engorda, começamos a produzir hormônios — como leptina, adiponectina, resistina — tanto no próprio tecido adiposo como em outros tecidos, como estômago e intestino. Tem hormônios que ajudam a sensação de saciedade e hormônios que ajudam a abrir o apetite, a engordar e manter o peso elevado. Então, depois que você engorda, é muito mais difícil emagrecer, já que há essa alteração hormonal”, explica.
Além disso, existem fatores metabólicos, já que a obesidade leva a uma maior resistência à insulina e lipogênese (formação de gordura), ou seja, o indivíduo come o mesmo alimento e forma mais gordura. “Há essa questão da inflamação crônica, uma inflamação de longa duração que produz substâncias no tecido adiposo, e cada tipo de tecido adiposo produz substâncias inflamatórias diferentes. Essa inflamação tende a perpetuar a resistência insulínica, que piora a inflamação, que piora a resistência insulínica, e vira aquele círculo vicioso”, detalha o médico.
A inflamação, por sua vez, também afeta o hipotálamo, região do cérebro onde estão os centros reguladores de apetite. Assim, ocorre a desregulação do apetite e da saciedade em pacientes com obesidade.

Há ainda o componente genético, que desempenha um papel importante nesse contexto. De acordo com o especialista, existem os casos de doença monogênica (somente um gene alterado), que são mais raros, mas a maioria está associada a alterações em vários genes — os chamados polimorfismos — que, juntos, contribuem para o surgimento da obesidade. “Essa questão hereditária chega a superar 50% dos casos de obesidade”, diz o dr. Ricardo.
O papel do ambiente obesogênico
Um ambiente obesogênico é aquele que favorece o ganho de peso e dificulta a adoção de hábitos de vida saudáveis. Especialistas apontam que esses ambientes são os grandes responsáveis, em nível epidemiológico, pela manutenção e aumento expressivo dos níveis de obesidade nas últimas décadas. Atualmente, cerca de 16% da população mundial adulta vive com obesidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A prevalência da doença mais do que dobrou entre 1990 e 2022.
“[O ambiente obesogênico] se caracteriza pela ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sódio, que são práticos, de fácil preparo e, muitas vezes, mais baratos e acessíveis do que os alimentos in natura e minimamente processados”, explica Francieli.
Uma dieta com alimentos menos processados sempre será mais saudável, ainda que a quantidade de calorias seja semelhante à de uma dieta processada. “Inclusive, existem estudos mostrando que em dietas equivalentes em calorias — considerando alimentos processados e ultraprocessados versus alimentos mais naturais, menos processados —, a perda de peso é muito maior [com alimentos naturais] para a mesma ingestão calórica”, complementa o dr. Ricardo.

É mais difícil, também, interromper o consumo de alimentos ultraprocessados. Quando começamos a ingeri-los, fica mais complicado parar de comer, o que ilustra seu efeito no comportamento alimentar, aponta a nutricionista. A combinação de açúcares, gordura e sódio em excesso (com baixo teor de fibras e proteínas) impacta diretamente os mecanismos de fome e saciedade, dificultando a percepção do corpo quanto ao momento de parar de comer, além de prejudicar o controle glicêmico. Ela destaca ainda que esses produtos são amplamente promovidos por meio de estratégias de marketing abusivas.
“Paralelamente, trata-se de um ambiente que oferece poucas oportunidades para a prática de atividade física, estimulando o sedentarismo e o aumento do tempo de tela. Esse conjunto de fatores contribui para um maior consumo calórico e menor gasto energético, favorecendo o desenvolvimento da obesidade, conforme descrito na literatura científica.”
Teoria do set point: por que é tão difícil manter o peso
Quando, mesmo assim, o indivíduo consegue perder peso, há um novo — e talvez até mais difícil — desafio: manter o novo peso. Uma das explicações para isso é a chamada teoria do set point. O corpo define um peso determinado como seu “ponto de ajuste” e defende esse peso a qualquer custo. Por exemplo, se uma pessoa chega aos 110 kg, esse será o seu set point. Se ela emagrece, e passa a pesar 90 kg, o hipotálamo aumenta a fome e reduz a sensação de saciedade, com o objetivo de forçar o retorno aos 110 kg.
“Esse set point metabólico é regulado biologicamente, e ele vai percebendo as mudanças que ocorreram, de emagrecimento, de dieta, de atividade física, e vai contrabalançando essas mudanças que nós tentamos implementar. Ele diminui nosso gasto energético basal, nossa energia para treinar, e faz com que haja um aumento da fome, a sensação de fome vai aumentando à medida que a gente vai perdendo peso”, esclarece o dr. Ricardo.
Quando há uma redução do tecido adiposo, que armazena gordura, o nível de leptina (hormônio que regula a saciedade, produzido pelas células de gordura) diminui. O cérebro, ao perceber essa redução, estimula outros hormônios (como a grelina, ligada à fome) que vão estimular o apetite. “Esse é um dos mecanismos através do qual a teoria do set point age para perpetuar e dificultar essa manutenção do peso perdido”, completa o médico.

É por isso que quanto mais uma pessoa engorda, mais difícil fica para ela emagrecer. Não se trata de falta de força de vontade, mas de uma questão fisiológica. “Esse peso máximo — alguns cientistas acreditam que para o resto da vida, outros acreditam que durante um longo período — será sempre algo a que o corpo vai querer voltar; ele sempre vai fazer uma força em direção a esse peso. À medida que você vai perdendo peso, o quilo seguinte vai ficando mais difícil porque o próprio organismo vai trabalhar para voltar para aquele peso máximo que ele já teve uma vez na vida.”
Segundo a publicação Obesidade Controlada, parceria entre a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e a SBEM, não há evidências de que, mesmo depois de um bom tempo com o novo peso, o organismo se adapte e deixe de defender aquele peso maior do passado.
Medicamentos para obesidade não são atalho, e sim necessidade
Ana Caroline Oliveira, confeiteira, hoje com 30 anos, convive com a obesidade desde muito cedo, já que tem um forte histórico da doença na família. O excesso de peso afetou não apenas a saúde física, mas também sua saúde mental e vida social.
“Aos 16 anos, fui diagnosticada com hipertensão. Depois vieram colesterol alto, gordura no fígado e pré-diabetes. Além disso, fui diagnosticada com ansiedade e compulsão alimentar ainda criança. A comida virou um refúgio emocional. Eu vivia em luta comigo mesma, tentando emagrecer, falhando e me sentindo culpada o tempo todo”, relata.
Ana chegou a pesar 141 kg e, aos 22 anos, três médicos diferentes recomendaram que ela fizesse cirurgia bariátrica. A decisão não foi fácil, mas necessária. No total, foram mais de 60 kg eliminados. Com o passar do tempo, e principalmente por questões de saúde mental, ela recuperou 21 kg.
“Muita gente acha que a bariátrica é cura, mas não é. A obesidade é uma doença crônica, silenciosa e foi difícil me ver voltar para os três dígitos de novo. [Mas] hoje eu lido com mais consciência e menos culpa. Sei que vou precisar me cuidar para sempre”, afirma.
Atualmente, além da bariátrica, o tratamento para obesidade é baseado nos agonistas de GLP-1 (medicamentos como semaglutida, tirzepatida, entre outras), que oferecem outros caminhos para o emagrecimento. Eles possibilitam que pessoas obesas consigam perder peso sem necessariamente passarem por uma cirurgia, mudando hábitos de vida de forma que seria quase impossível por vontade própria.

Quando comemos o suficiente, alguns hormônios são produzidos para que o corpo entenda que é hora de parar: o GLP-1 e o GIP. Naturalmente, tais hormônios mantêm a saciedade por cerca de duas horas depois de comer. Esses medicamentos, por sua vez, dão a mesma sensação, só que 24 horas por dia.
“Vamos dizer que você, independente do seu peso, come uma quantidade X. E amanhã alguém fala: ‘Você tem que comer 30% menos’. Você vai sofrer para caramba. Vai ficar com fome, vai ficar com inabilidade, vai ficar com a sensação de que está passando mal, o tempo todo. Qualquer pessoa que tenta comer menos do que o organismo a induz a comer vai sofrer, e a medicação serve para viabilizar isso”, explica Bruno Geloneze, endocrinologista, pesquisador e professor da Unicamp.
Para Beatriz Fávaro Esteves, empresária de 27 anos, a estratégia funcionou. Devido ao estilo de vida sedentário, má alimentação e rotina corrida, Beatriz chegou a pesar 117 kg. Ao fazer exames, descobriu que estava ainda com pré-diabetes, colesterol alto, resistência à insulina e gordura no fígado grau 3. Tentou de tudo para emagrecer, mas nada dava resultado: nem dieta, nem academia.
“É muito difícil porque você tem uma rotina e quer mudar, só que você não consegue sozinha. Eu me sentia super mal, porque eu achava que era a única pessoa do mundo com a qual acontecia isso”, conta a empresária.
Depois de cogitar cirurgia bariátrica e balão gástrico, Beatriz começou o tratamento com acompanhamento médico com a droga tirzepatida. Para ela, os efeitos colaterais se resumiram a indisposições ao comer alimentos mais gordurosos. No segundo dia do medicamento, já sentia menos fome e uma melhora significativa na sua relação com a comida.

“Eu tinha que perder, no mínimo, 40 kg. Um ano antes, eu estava tentando mudar e não conseguia, tanto que desisti várias vezes. Então eu vi o medicamento como uma forma de ajudar a mudar minha vida. De realmente não voltar para onde eu estava antes”, diz.
Após oito meses de tratamento, Beatriz melhorou todos os seus exames e chegou aos 76 kg. As mudanças saudáveis no estilo de vida, que acompanharam o uso do medicamento, são consideradas pelos especialistas um item determinante para o sucesso.
“A pessoa tem um estilo de vida para manter um certo padrão de peso. 100 kg, 80 kg, 60 kg, tanto faz. E ela coloca um freio nisso. O freio vai funcionar enquanto for acionado. É por isso que bons hábitos de vida são a chave para o emagrecimento. E eles são viabilizados para a pessoa que tem obesidade apenas com a ajuda de medicamentos”, afirma o dr. Bruno.
Mas não existe fórmula perfeita: mesmo em indivíduos que têm um IMC ou grau de obesidade semelhante, os sistemas hormonais, metabólicos, genéticos e hereditários se manifestam de forma diferente. A resposta individual ao tratamento da obesidade é variável, dependendo da fase de vida do indivíduo, idade, sexo, entre outros fatores.
O próximo passo está no gasto de energia
Ao mesmo tempo, é provável que esses medicamentos estejam chegando ao ápice da sua potência. Para ampliar o alcance da ciência no tratamento da obesidade, o novo caminho a ser desbravado tem a ver com o gasto energético.
O gasto energético do organismo acontece de três maneiras. O primeiro a partir de processos necessários para se estar vivo, como a respiração, as batidas do coração, a renovação das células, entre outros. Isso equivale a cerca de 60% da energia gasta por dia em qualquer indivíduo.

O segundo é a energia despendida para se movimentar, ou seja, realizar atividades físicas. Elas são uma ótima opção para a perda de peso, mas realizá-las com constância depende de vários fatores como motivação, tempo, acesso e disciplina.
E o terceiro, que mais atrai os pesquisadores, é a termogênese — o gasto energético necessário para manter a temperatura corporal ideal (36°C). A termogênese depende da gordura marrom, um tipo de gordura “boa” que queima calorias para gerar calor. Essa queima é intensificada quando o indivíduo é exposto ao frio intenso, justamente porque ele precisa ativá-la para se esquentar.
O que os cientistas descobriram é que existe um tipo de receptor celular que provoca essa ativação sem que a pessoa precise se expor ao frio, através apenas de um mecanismo farmacológico.
“Essas drogas já existem. Só que quando as usamos em uma dose alta, que é a dose que de fato aumenta o gasto energético, elas têm efeitos colaterais principalmente no sistema cardiovascular. Elas aumentam muito a frequência cardíaca, a pressão arterial e o risco do paciente ter arritmias. Por isso, ainda não conseguimos usá-las como uma opção termogênica. Essa é a má notícia. Mas a boa notícia é que muita gente está pesquisando essas drogas para tentar desenvolver uma que seja segura do ponto de vista cardiovascular”, garante Lício Velloso, coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades da Unicamp.

Futuramente, espera-se desses medicamentos que aumentem o gasto energético em pessoas cujo gasto energético normal não é mais suficiente para fazer com que elas voltem ao seu peso saudável, como no caso dos obesos.
“Precisamos encontrar outro mecanismo, e o mecanismo que nos parece mais adequado agora são medicamentos que aumentam o gasto energético. Aí somamos os dois: as drogas que diminuem a fome junto com as drogas que aumentam o gasto energético, e teremos um cenário bem mais interessante para tratar a obesidade”, prevê o médico.



